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O fim dos robôs-geólogos em Marte


Por Alvaro Penteado Crósta* publicado no Portal da UNICAMP

 

 

Em janeiro de 2004 o jipe-robô (“rover”) Spirit pousava na superfície de Marte, seguido do Opportunity, cuja aterrissagem ocorreu três semanas após o do seu irmão-gêmeo, em outro local no mesmo planeta. O objetivo estabelecido pela NASA para a Missão MER (“Mars Exploration Rover”) era estudar os solos e a geologia das duas regiões. O foco particular desse estudo estava na busca de evidências de processos geológicos tais como transporte, precipitação e sedimentação, assim como atividade hidrotermal, relacionadas à presença de água em Marte. Para tanto, o desafio colocado para os robôs-geólogos era determinar a distribuição e a composição de minerais, rochas e solos nas respectivas regiões de pouso, selecionadas com base em suas características geológicas.

Representações artísticas dos jipes-robôs Spirit e Opportunity (NASA/JPL)

Representações artísticas dos jipes-robôs Spirit e Opportunity (NASA/JPL)

Com base nas informações coletadas pelos dois jipes, os cientistas participantes da missão almejavam determinar que tipos de processos geológicos teriam atuado e quais teriam sido as condições ambientais na época em que água em estado líquido era abundante naquele planeta. Finalmente, esperavam obter informações sobre as condições ambientais que poderiam ter possibilitado o desenvolvimento de vida no Planeta Vermelho, assim chamado pela alta concentração superficial de solos e minerais ricos em ferro.

Os jipes, projetados e construídos pelos técnicos do Jet Propulsion Laboratory (JPL),tinham uma vida útil operacional prevista para 90 dias e deveriam percorrer uma distância total de aproximadamente 1 km. Contudo, ambos superaram em muito essa expectativa. O Spirit percorreu a superfície de Marte por mais de cinco anos até que, em meados de 2009, após um percurso de 7,7 km, suas rodas atolaram em solo arenoso, deixando-o inclinado de uma maneira que dificultou a recarga das baterias solares. Assim mesmo o Spirit continuou operando como uma plataforma fixa até março de 2010, quando suas comunicações com a Terra cessaram.

Já o Opportunity, apelidado carinhosamente pelos técnicos do JPL de “Oppy”, após ter pousado no interior de uma pequena cratera de impacto meteorítico (Cratera Eagle, com 22 m de diâmetro), cumpriu de forma admirável sua missão, coletando informações de extrema relevância científica durante quase 15 anos e percorrendo mais de 45 km, até a borda de outra cratera de impacto, a Cratera Endeavour (com 22 km de diâmetro). Nesse percurso, Oppy registrou mais de 200 mil imagens, incluindo 15 panorâmicas de 360o, analisou centenas de afloramentos de rochas, identificou diversos minerais, incluindo hematita, um mineral composto por óxido de ferro que se forma em ambientes com água. Encontrou um meteorito (o primeiro registrado fora da Terra) e identificou marcas da ação de água em vários locais, entre muitos outros achados.

Foto da Cratera Eagle, local do pouso do Opportunity, tirada pelo próprio jipe. No interior da cratera encontra-se o dispositivo de aterrisagem e as marcas das rodas do jipe, após manobrar para sair do interior da cratera e iniciar sua jornada (NASA/JPL).

Foto da Cratera Eagle, local do pouso do Opportunity, tirada pelo próprio jipe. No interior da cratera encontra-se o dispositivo de aterrisagem e as marcas das rodas do jipe, após manobrar para sair do interior da cratera e iniciar sua jornada (NASA/JPL).

Meteorito metálico descoberto pelo Opportunity (NASA/JPL)

Meteorito metálico descoberto pelo Opportunity (NASA/JPL)

O acervo de informações coletados por essas duas missões possui valor científico incalculável, o que as torna um dos marcos mais exitosos da exploração interplanetária. Elas revelaram que Marte foi, no passado, um planeta muito diferente do atual. De uma época em que a água era abundante, tanto na superfície como no subsolo, o planeta evoluiu para as atuais condições desoladas e secas.  Os resultados obtidos estão permitindo não apenas estabelecer as bases para as futuras missões da NASA ao Planeta Vermelho, como a “Mars 2020”, a ser lançada em julho do próximo ano, como também o possível envio de missões tripuladas àquele planeta, dentro de um futuro não muito distante.

No dia 10 de junho de 2018 uma forte tempestade global de poeira alcançou o Opportunity na borda da Cratera Endeavour, fazendo com que o jipe perdesse contato com o Centro de Controle de Missões. Desde então, os técnicos da NASA/JPL vinham tentando, por vários meios, reestabelecer contato, infelizmente sem sucesso. Em decorrência disso, no dia 13 de fevereiro de 2019 a NASA comunicou oficialmente o encerramento da missão do Oppy.

Tive a extraordinária oportunidade de estar presente no evento de encerramento da missão e de despedida do Opportunity, no Auditório von Kármán do JPL. O evento contou com a presença de autoridades da NASA, CalTech e JPL e, principalmente, dos cientistas e engenheiros responsáveis pela concepção, construção e operação da Missão MER.

Gerente do Projeto Opportunity John Callas (esq.) e Cientista Principal da Missão Steve Squyres (dir.) falando no evento de despedida do Opportunity no Auditório von Kármán do JPL

Gerente do Projeto Opportunity John Callas (esq.) e Cientista Principal da Missão Steve Squyres (dir.) falando no evento de despedida do Opportunity no Auditório von Kármán do JPL

Foi um privilégio compartilhar desse momento de muita emoção, em que os sentimentos dos presentes se mesclavam e alternavam entre a alegria e o orgulho por uma missão cumprida com extremo sucesso, e a tristeza pelo seu encerramento. Emoção essa que levou vários dos presentes às lágrimas, algo perfeitamente compreensível quando nos damos conta de que muitas dessas pessoas vivenciaram as várias fases da Missão MER por mais de duas décadas!

Alvaro Crósta e a cientista brasileira Rosaly Lopes, pesquisadora sênior do JPL, com a réplica do Opportunity ao fundo

Alvaro Crósta e a cientista brasileira Rosaly Lopes, pesquisadora sênior do JPL, com a réplica do Opportunity ao fundo

* O autor é professor titular de Geologia do Instituto de Geociências da Unicamp e se encontra atuando como pesquisador visitante junto ao Jet Propulsion Laboratory, CalTech/NASA, na Califórnia, EUA.

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